Região Trentino – Südtirol (Trentino-Alto Adige)

A região da Província Autônoma de Trento se encontra no extremo norte da Itália, em meio às montanhas Dolomitas, no início dos Alpes. Seus vales e montes encantam pelas belezas naturais e pela simpatia e simplicidade do povo trentino.

Bandeira da Provincia Autonoma di Trento

Bandeira da Provincia Autonoma di Trento

Politicamente, o a Província Autônoma de Trento se encontra unida à Província Autônoma de Bolzano (Bozen), sendo hoje oficialmente chamadas Região Trentino-Alto Adige; juntas são a porção meridional do antigo Tirol do Sul, unido ao Tirol austríaco até 1918. Sua principal característica é que a língua do Trentino é historicamente a italiana, enquanto a das demais regiões é a alemã.

Alpes sul-tiroleses

O Trentino é hoje uma das regiões européias com maior fluxo turístico, por causa de suas paisagens montanhosas e de suas cidades e castelos históricos. Conhecido também pela tradição de corais populares e profissionais (SAT – Società degli Alpinisti Trentini) e dos alpini (exército trentino), seus grupos estão entre os mais elogiados da Europa.

Histórico

Os trentinos são também chamados tiroleses, pois o Tirolo italiano é a porção mais ao sul do antigo Estado do Tirol, pertencente ao Império Austro-húngaro até 1918 e que após a I Guerra Mundial foi dividido entre a Áustria e a Itália. Contudo, é na região trentina que se pode notar uma verdadeira mescla cultural ítalo-germânica, já que nas demais regiões tirolesas a língua principal é a alemã. O fator lingüístico nunca trouxe problemas, pois o secular convívio sempre pacífico dos tiroleses de língua alemã e italiana (e vale lembrar que, em ambos os casos, eram os dialetos que prevaleciam) possibilitou uma identidade italiana aos tiroleses trentinos. A figura do herói Andreas Hofer e da união tirolesa contra Napoleão reforçou muito o espírito de unidade cultural, e apesar de separadas politicamente, as regiões hoje não o são culturalmente.

Mapa do Trentino - Alto Adige

1. Águia símbolo do Imério Austro-Húngaro Tirol – Áustria

2. Águia símbolo do Sudtirol Südtirol (Alto Adige) – Itália

3.Águia símbolo do TrentinoTrentino – Itália

A região do Tirol histórico e suas três províncias

Na Idade Média o nome ladino de um castelo da cidade de Merano deu nome à região: Tyrol. A língua ladina (ladin), ainda falada em áreas do Trentino e do Alto Adige, é um antigo idioma de origem latina, resquício do latim imposto aos gauleses na dominação romana e que se preservou nos vales alpinos até os dias de hoje. A região foi a histórica Gália Cisalpina dos Celtas, incorporada em 201 a.C. pelos romanos e que recebeu após o século V os povos germânicos vindos do norte da Europa – o termo Welschtirol, que em alemão designa o Trentino, significa Tirol italiano mas também Tirol Gaulês, em referência ao passado da região.

Importante na história européia, o Principado de Trento foi durante muitos séculos um local relevante no contexto político do Sacro Império Romano-Germânico de Carlos Magno e sua Diocese sempre teve importante papel na região (foi na capital da província que ocorreu o Concílio da Igreja no século XVI). O Principado do Tirol e o Principado de Trento formavam a Província Episcopal do Tirol, que no século XI tinha seu governo dividido entre os tradicionais príncipes-bispos trentinos e os condes do tiroleses, ambos proeminentes de nobres famílias. Em meados do século XIII quase toda a província já pertencia à Casa de Habsburg (casa imperial da Áustria). A jurisdição episcopal diminuiu, embora muitos territórios eclesiásticos fossem mantidos e podiam ser encontrados na região até 1803, com o último príncipe-bispo de Trento, Pietro Vigilio Thun. Em 1806 o Sacro Império Romano-Germânico é dissolvido.

Entre a Áustria e a Itália

O Trentino foi palco de disputa entre a Áustria e a Itália, quando os Estados nacionais começavam a surgir na Europa. Foram momentos difíceis, que muitas vezes dividiam a opinião da população trentina. Principalmente por sua passagem estratégica por entre os Alpes, a região sofreu algumas guerras.

Andreas Hofer

A sublevação tirolesa de 1809, chefiada por Andreas Hofer surgiu com a não aceitação do novo governo e das novas idéias trazidas pela ocupação franco-bávara. Nascido na pequena cidade de São Leonardo (Val Passiria) no Alto Adige, católico fervoroso e muito apegado às tradições de sua região, Andreas Hofer chefiou as tropas dos Sizzeri (Schützen) e foi responsável pela recuperação do Tirol das mãos dos bávaros (aliados a Napoleão).

Apoiados por grande parte do clero e pelo irmão do imperador, os tiroleses organizaram tropas de atiradores (Schützen, Sìzzeri), dos quais 18 mil eram voluntários trentinos.

Conquistado o governo de Innsbruck, instaurou-se um governo provisório e de notável cunho cristão, que durou pacificamente até 1810, quando então Napoleão prepara mais tropas contra os patriotas austíacos.

Estrategicamente, Napoleão se aliou mutuamente ao Império Austro-húngaro e ao Reino Itálico e chegou em 1810 ao Tirol com mais tropas. O Sandwirt Andreas Hofer é perseguido e preso, vítima de traição; posteriormente é morto em Mantua.

Dos trentinos inscritos na defesa, 4 mil tombaram em batalha. A grande heroína da resistência tirolesa foi uma trentina nascida em Primiero, Giuseppina Negrelli, que heroicamente lutou contra a invasão franco-bávara, auxiliando os atiradores.

Em 1810, o Trentino e parte do Alto Adige são incorporados por Napoleão ao Reino Itálico. No mesmo ano, a Áustria entra em guerra contra a França. A resistência tirolesa marca o início das baixas da França, quando Napoleão será posteriormente destronado. A Áustria ocupa no Trentino pelo Castelo de Buonconsiglio, incorporando a região ao Estado do Tirol em 1813 e oficialmente em 1816, permanecendo assim por mais de um século.

No final da I Guerra Mundial (1918), ocorre a anexação da porção sul do Tirol (Trentino e Alto Adige) à Itália. Iniciou-se no Trentino um trabalho em busca da autonomia administrativa, trabalho este que já existia por parte dos deputados trentinos na Dieta Tirolesa, no período do Império Austro-húngaro – vale destacar o trabalho de personagens importantes para a autonomia como Alcide Degasperi e Pe. Lorenzo Guetti.

Em 1926 o fascismo chega ao Trentino e ao Alto Adige. Torna-se proibido o uso da língua alemã em Val Fersina (Trentino) e no Alto Adige, e tem início o processo de italianização da Província (sem grandes êxitos). Em 1940, a Itália entra em guerra ao lado da Alemanha; com as baixas italianas da guerra, os alemães entram na defesa dos Alpes e em 1943 já controlam toda do Trentino-Alto Adige e a área de população ladina do Vêneto; Hitler determina a criação do Alpervorland (região dos Pré-Alpes), com intuito de agregar as populações outrora austríacas ao Reich alemão. Em 1945 termina a II Guerra Mundial e a região Trentino-Alto Adige retorna ao governo italiano, a língua alemã deixa de ser proibida para os atesinos e mantém-se como língua oficial do Alto Adige.

A busca pela autonomia

Alcide Degasperi teve grande importância para a autonomia, pois trabalhava em prol desta causa desde o domínio austríaco e tornou-se o “presidente da reconstrução trentina”. Nascido em Pieve (Tesino), estudou em Viena de 1900 a 1902 e lutou pelos direitos dos tiroleses de língua italiana, com projetos de construção de universidades italianas, inclusive no Tirol de língua alemã; dirigiu o jornal católico La Voce Cattolica, mudando o nome do mesmo para Il Trentino, acentuando, assim, sua posição em prol da identidade italiana de sua região. Em 1911 é eleito deputado em Viena, tendo participado após a I Guerra dos processos de anexação do Trentino à Itália. Nunca participou do movimento irredentista (que buscava a separação do Trentino da Áustria e sua união com a Itália), mas soube defender a italianidade trentina, sem causar indisposições com a população de língua alemã.

Em 1946 é assinado o em Paris o acordo entre Alcide Degasperi (Trentino) e Alfons Gruber (Alto Adige), que confirma as fronteiras ítalo-austríacas de 1918, mas prevê uma grande autonomia para o Alto Adige em um quadro que compreendeu o Trentino. Em 1948 o Parlamento italiano aprova o primeiro estatuto de autonomia especial do Trentino-Alto Adige. Em 1961 se iniciam os atentados no Alto Adige, em busca de uma anexação com a Áustria; houve uma pequena participação trentina, e o problema vai parar nas Nações Unidas. A região de língua alemã foi inicialmente designada como Alto Adige-Tiroler Entschland (território tirolês no Alto Adige), transformado em 1971 para Südtirol (Alto Adige). Em 1972 surge o novo Estatuto da autonomia, que será inteiramente posto em prática em 1992. Em 1993, o primeiro presidente italiano visita Viena após um século de tensões.

Com a União Européia e o livre acesso entre os países europeus, muitos dos problemas políticos foram deixados de lado e projetos como o Instituto Ítalo-Germânico tornam-se realidade; as diferenças que as guerras impuseram parecem esquecidas e com o grande fluxo turístico, a região do Trentino-Alto Adige-Tirol une-se cultural e economicamente. Figuras históricas como Andreas Hofer e Alcide Degasperi são ainda lembradas com muito prestígio no Trentino, principalmente por jamais desejarem discórdias entre a população tirolesa de língua italiana e alemã.

Bandeira do Sudtirol
Bandeira da Região Trentino-Südtirol – Itália

A imigração

O enfraquecimento do Império Austro-húngaro e as baixas na agricultura trouxeram muita pobreza para várias regiões européias. Com o advento das duas grandes guerras e com os novos rumos políticos que o Reino da Itália trazia à tradicional região, não houve grandes contentamentos. O momento político da Europa não era fácil e muitíssimas famílias trentinas foram obrigadas a imigrar já antes da I Guerra Mundial. Em sua grande maioria eram camponeses, que devido às diversas crises, optaram pela imigração, para melhorarem suas condições e de seus familiares, buscando viver em novas terras. Entre as duas grandes guerras, o número de imigrantes foi muito grande e regiões inteiras tiveram grande queda no índice demográfico.

A maior parte dos imigrantes optaram pela América. Os países que mais receberam imigrantes trentinos foram o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. Houve, porém, imigrações dentro da Europa, para a Áustria, Alemanha, França, Inglaterra e Iugoslávia, bem como para demais regiões da Itália. Para várias outras localidades, trabalhadores trentinos partiam em busca de melhores condições de vida, mas nem sempre foi isso o que encontraram. Dificuldades com a adaptação, a língua, moradia e emprego fez com que colônias inteiras sofressem anos de pobreza, superados apenas duas gerações seguintes.

Trentinos no Brasil

O Brasil foi um dos países que mais recebeu imigrantes trentinos (e tiroleses em geral); o número de imigrantes saídos da região do Trentino chegou a 30 mil e hoje os descendentes de tiroleses no Brasil (diretos e indiretos) já ultrapassam o número de aproximadamente 200 mil. No Estado de São Paulo as maiores colônias estão nas cidades de Piracicaba (Bairros Santa Olímpia e Santana), Jundiaí, ABC Paulista e Pedreira.

Estabeleceram-se em várias localidades, principalmente nos Estados do Sul e do Sudeste. A grande maioria seguiu para o campo, trabalhando com café principalmente. Os imigrantes trentinos também ajudaram o Brasil na introdução e cultivo de parreirais, ajudando a desenvolver a produção vinícola nacional. Nas cidades, os imigrantes ajudaram a desenvolver a indústria e estabeleceram comércios. Cidades com maioria da população de origem trentina pode ser encontradas no Estado de Santa Catarina, como Nova Trento (terra de Santa Paulina), Rio dos Cedros e Rodeio.

Desenvolveram-se no Brasil (principalmente nos últimos anos) os Círculos Trentinos (Circoli Trentini del Brasile), que são entidades formadas pelos descendentes que trabalham em prol da preservação da cultura tirolesa trentina, com diversas atividades civis e culturais. Um importante trabalho dos círculos foi o da obtenção de cidadania italiana aos descendentes trentinos, principalmente àqueles descendentes de imigrantes vindos do Trentino antes da I Guerra Mundial e que possuíam passaporte austríaco. Os usos e costumes de seus antepassados ainda são encontrados nas cidades e colônias trentinas do Brasil, principalmente no uso dos dialetos, nas construções e cozinha típica.

No Bairro de Santa Olímpia muitos dos costumes trentinos são mantidos: no modo de viver e no dialeto ainda falado, nos pratos típicos e nas manifestações culturais, importantes fatores que jamais deverão ser esquecidos pelos descendentes tiroleses.

Por: Everton Altmayer (Universidade de São Paulo)

3 comentários para Região Trentino – Südtirol (Trentino-Alto Adige)

  • Renato Bettega  diz:

    Excelente e esclarecedor esta matéria, parabéns Everton por trazer de forma clara a história da região e do povo que nos antecedeu.
    Lembro das histórias e as descrições do lugar que meus avós faziam da terra natal. Tive a oportunidade de conhecer Trento e estou as voltas de retornar dentro dos próximos dias para explorar e desfrutar melhor esse lugar encantador que ficou sempre muito vivo na saudades daqueles que pela extrema necessidade um dia tiveram que se ausentar.
    Obrigado

  • gostei muito pois minha bisavó era de Trento - trentino.  diz:

    gostaria de saber mais sobre Trento- trentino minha bisa avó era deste lugar seu nome de casa era Amalia MOSER, casou-se com um imigrante Jose Avancinni.

  • josé luis cruz  diz:

    Hoje fiquei mais rico em ver mais um pedaço de historia pura da vida de minha avó GENEROSA BOLSANO.

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