A história do bairro de Santa Olímpia

“Verificada a guerra violenta da Alemanha contra a emigração de seus habitantes para o Brasil, esta fonte não poderia ter sido melhor substituída senão pelos habitantes das terras do Tirol. As famílias são autenticamente patriarcais, seja pela dimensão, seja pela moralidade, união e amor ao trabalho. Sendo certo que a colonização não deve ser afrontada unicamente como elemento de evolução material, isto é, braços, mas decididamente valorizada como elemento de evolução social, que retempera o sangue e a virilidade brasileira, e coopera proficuamente para a nossa civilidade, parece que a esse desejo, melhor correspondem os emigrantes tiroleses”

Joaquim Bonifácio do Amaral, Visconde de Indaiatuba, 1879.

Histórico

Com a constante crise que assolava a Europa no final do século XIX, assim como a escassez de trabalho, muitas famílias decidiram deixar suas terras e se arriscarem no novo mundo, na esperança de poder encontrar melhores condições sociais.

Na Europa do final do século XIX, iniciaram-se conflitos regionais e os Estados nacionais começaram a se firmar; as monarquias perderam espaço e prestígio e este período iniciou o trágico processo que desencadearia as duas grandes guerras mundiais. O Império Austro-Húngaro, outrora poderoso, começava a sofrer com conflitos regionais, pois dominava para si grandes extensões de terras, com povos de etnias, línguas, culturas e religiões diversas. Tal realidade, agravada com as crises comerciais, resultaram em uma pobreza muito grande, principalmente nas áreas rurais. Essa situação não foi diferente nas belas, porém pobres terras alpinas.

No período do Império Austro-Húngaro, a região do Tirol, de onde são originários os emigrantes trentinos, era formado por duas Províncias: Tirol do Norte e Tirol do Sul, sendo esta última dividida entre Província de Bolzano e Província de Trento. A região trentina, incrustada nas montanhas Dolomitas, era a região tirolesa onde o idioma principal não era o alemão, mas o italiano e, ainda que em formas dialetais, sua identidade cultural fez com que, anos mais tarde, a província requeresse sua autonomia governamental. No final da I Guerra Mundial (1918), a porção sul do Tirol foi anexada à Itália, passando a ser chamada Regione Trentino-Alto Adige (na língua italiana) ou Land Trentino-Südtirol (na língua alemã); hoje formam uma região autônoma.

O Trentino estava sob domínio austríaco quando o Império Brasileiro fazia propagandas para o recrutamento de emigrantes, visando substituir o contingente de mão de obra outrora escrava. A difícil situação política e social fez com que muitas famílias tirolesas emigrassem, com o sonho de “fazer a América”. Vindas principalmente da região trentina, o Brasil instalou seus emigrantes nas regiões Sudeste e Sul principalmente; essas famílias seguiam rumo ao campo, para trabalhar nas lavouras de café.

O bairro Santa Olímpia

Incentivados pela família Stenico, originária do Distrito de Romagnano e que estava no Brasil desde 1877, outras famílias seguiram o mesmo caminho da emigração. Em dezembro de 1881, deixaram o Tirol as famílias Correr, Forti, Brunelli e Pompermayer (Distrito de Romagnano), Degaspari (Distrito de Sardagna), Christofoletti (Distrito de Cortezano).

O navio Frankfurt

Em 24 de dezembro de 1881, os novos imigrantes desembarcaram com o navio alemão Frankfurt no Rio de Janeiro e no dia 31 de dezembro em Santos. Os trentinos vieram fazer a América, assim como os demais imigrantes. De Santos, seguiram diretamente para a Fazenda Sete Quedas, de propriedade do Sr. Visconde de Indaiatuba (na cidade de Campinas), onde trabalharam como colonos, sob um regime de parceria.

O visconde sentia-se muito satisfeito diante da sinceridade e honradez dos novos colonos, impressionando-se com a piedade e religiosidade dos tiroleses, que os conservava unidos e fiéis nas tarefas da lavoura.

Foto da família Stenico

Segundo os relatos dos mais antigos moradores, o próprio Imperador do Brasil, Dom Pedro II, foi um dia conhecer a colônia. Conta-se que muito se agradou com os tiroleses e que se demorou em familiar conversação na língua alemã, pois D. Pedro II era por parte materna descendente da Casa Imperial austríaca e sua mãe, a Imperatriz Maria Leopoldine von Habsburg, viveu alguns anos na cidade de Innsbruck, capital do Tirol e uma das residências imperiais austríacas.

Colonos na lavouraTerminados os contratos da fazenda, os colonos mudaram-se para Piracicaba, trabalhando na fazenda Monte Alegre. Após quatro anos de árduo trabalho, as famílias compraram com o que economizaram a Fazenda Santa Olímpia, no município de Piracicaba. Iniciou-se, assim, em 1892, a fundação daquele que seria posteriormente o Bairro Santa Olímpia. Seus principais núcleos famíliares eram formados pelas famílias Correr, Pompermayer, Stenico, Christofoletti, Brunelli, Degaspari, Forti, Veneri, Negri e Zotelli.

Monumento aos pioneiros

Inicialmente, os colonos trabalharam com o café, pois o cultivo deste ainda era promissor no final do século XIX; com a crise, na década de 1920, teve início o cultivo de algodão e posteriormente o de cana de açúcar. Em menor escala eram cultivados o arroz, milho, feijão e hortaliças, além da criação de animais. Os núcleos familiares produziam o açúcar e o vinho própios. Havia uma única serralheiria, pertencente a Luiz Negri; a luz elétrica chegou em meados da década de 1950 e com ela alguns progressos ao bairro. O cultivo da cana de açúcar ainda é mantido por algumas famílias locais. A distância entre o bairro e o centro urbano de Piracicaba contribuiu para a manutenção de certos hábitos locais, hoje mantidos muito mais pelo sentido de preservação do que prático. Detalhe do monumento aos pioneiros trentinos do Bairro Santa Olímpia.

No ano de 1992 o bairro comemorou os cem anos de imigração trentina para o município, homenageando os pioneiros e os patriarcas da emigração no bairro, Jacó Correr e Rosa Pompermayer.

O bairro Santana

Também em razão da crise econômica no Império Austro-Húngaro, em 1877 o patriarca Bortolo Vitti, sua esposa Maria Sartori e seus dez filhos (oito homens e duas mulheres) saíram do Tirol e emigraram para o Brasil na esperança de melhores condições. Tendo aqui chegado, também se instalaram como colonos na Fazenda Sete Quedas, do Visconde de Indaiatuba, junto com os demais emigrantes tiroleses.

Permaneceram cerca de dez anos na fazenda e depois se mudaram para o pequeno Sítio do Rio Cabeça, no município de Rio Claro. Por meio de um frade capuchinho, souberam que próximo à Fazenda Santa Olímpia, propriedade de seus parentes tiroleses, havia outra fazenda à venda; com suas economias, adquiriam em 1893, em sociedade, a Fazenda Sant’Ana, que, após alguns anos tornar-se-ia o Bairro Santana. Outras famílias tirolesas se estabeleceram na fazenda Sant’Ana e, através de casamentos, surgiram parentescos entre famílias dos bairros Santana e Santa Olímpia.

Os bairros Santa Olímpia e Santana formam, assim, o núcleo de colonização trentina de Piracicaba. Juntos, são uma das mais expressivas colônias de imigrantes de toda a região, em razão de seu desenvolvimento econômico e da influência cultural que hoje exercem no município de Piracicaba e demais cidades vizinhas, buscando sempre preservar, difundir e manter as tradições trentino-tirolesas.

A Igreja Imaculada Conceição e o Calvário

Através da iniciativa de Maria Correr Stenico, a “Zia Maria”, líder religiosa e social da comunidade, teve início em 08 de dezembro de 1913 a construção da primeira capela de Santa Olímpia. A capela ocupava o local onde atualmente se encontram as salas de catequese da atual igreja do bairro. Dois anos depois, no dia 15 de outubro, era realizada a primeira missa.

O Bairro Santa Olímpia crescia e para suprir a falta de espaços na capela, foi iniciada a construção de uma nova igreja, com iniciativa do Pe. Gabriel Correr, cujo início deu-se em 02 de março de 1953. Iniciaram-se as obras, enquanto na capela eram mantidas as atividades paroquiais.

A construção da nova igreja foi em sistema de mutirão, realizado pelos moradores da própria comunidade, que após o dia de trabalho no campo e principalmente nos finais de semana, se dedicavam à construção, que perdurou por algum tempo.

A procissão à virgem Maria

As obras foram concluídas em 20 de abril de 1957. A demolição da antiga igreja ocorreu no dia 29 de janeiro de 1966. O Calvário (“escadão”) foi inaugurado no dia 11/11/1945 pelo Bispo Dom Ernesto de Paula, em memória ao sacrifício de Cristo e das lutas e sofrimentos da comunidade em sua trajetória até aquele momento. Participaram na inauguração várias celebridades entre elas o Dr. Samuel de Castro Neves, pessoa muito voltada para as aspirações da comunidade; ali eram e são celebradas vias-sacras e procissões. Com um total de 90 degraus divididos em 15 lances de escadas, um para cada estação da Via-Sacra, este monumento religioso foi idealizado e construído motivado pela fé dos moradores.

O calvário

A primeira escola

A preocupação com os estudos e a educação das crianças fez com que no ano de 1923 fosse fundada a primeira escola para os bairros dos tiroleses. O primeiro morador com formação escolar foi José Christofoletti, que posteriormente tornou-se voluntário educacional. A iniciativa da primeira escola na fazenda Sant’Ana partiu de zia Maria e de José Vitti (que, inclusive, foi o 1º servente). Assim, levando o nome da fazenda, foi inaugurada a primeira escola, chamada Escolas Reunidas de Sant’Ana.

Escola Reunidas Santana

Atualmente, recebe o nome de Escola Estadual Dr. Samuel de Castro Neves (prefeito de Piracicaba nos anos 1950-1953), antigo médico dos moradores dos bairros de Santa Olímpia e Santana.

Algumas fotos do bairro

A velha igreja de Santa Olimpia
 

Colonos na lavoura
 

Construção da nova igreja
 

Inauguracao da nova  igreja

 

Santa Olimpia em 1950
Por: Everton Altmayer (Universidade de São Paulo)

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